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quarta-feira, 6 de abril de 2016

Ricardo Reis, in "Odes" Heterónimo epicurista de Fernando Pessoa Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio



Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                   (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                   Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                   E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                   E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                  Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                   Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
                   Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira- rio,
                   Pagã triste e com flores no regaço.

domingo, 22 de novembro de 2015

DIA DA FILOSOFIA 19 DE NOVEMBRO 2015


PADRE ANTÓNIO VIEIRA -Dia Mundial da Filosofia 19 de Novembro 2015 ESPAV Turma 11ºLH1



Em meados de 1674,   Padre António Vieira respondeu à seguinte dúvida:
O mundo é mais digno de lágrimas ou de risos?
E quem tinha mais razão, o filósofo Demócrito que sempre ria ou o filósofo Heráclito que sempre chorava?


Coube-lhe a defesa do riso de Demócrito.


 (Mestre de Epicuro)

"(...) Se o pranto e o riso aparecessem neste grande teatro no traje da verdade (sempre nua), sem dúvida seria a vitória do pranto. Mas vestido, ornado e armado de uma tão superior eloquência, que o riso se ria do pranto, não é merecimento, foi sorte. Tal é a intensidade e natureza destes contrários que o riso nasce na boca, como eloquente, e o pranto nos olhos, como sendo mudo. (...)

Demócrito ria sempre: logo nunca ria. A consequência parece difícil e é evidente. O riso, nasce da novidade, surpresa e da admiração, e cessando a novidade ou a admiração, cessa também o riso; e como Demócrito se ria dos ordinários desconcertos do mundo, e o que é ordinário e se vê sempre não pode causar admiração nem novidade; segue-se que nunca ria, rindo sempre, pois não havia matéria que motivasse o riso.

(...) Há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso: chorar com lágrimas é sinal de dor moderada; chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva. A dor moderada solta as lágrimas, a grande as enxuga, as congela e as seca. Dor que pode sair pelos olhos, não é grande dor; por isso não chorava Demócrito; e como era pequena demonstração da sua dor não só chorar com lágrimas, mas ainda sem elas, para declarar-se com o sinal maior, sempre se ria.(...)

Nada digo que seja contrário aos princípios da verdadeira Filosofia e da experiência. A mesma causa, quando é moderada e quando é excessiva, produz efeitos contrários: a luz moderada faz ver, a excessiva faz cegar; a dor, que não é excessiva, rompe em vozes, a excessiva emudece. Desta sorte a tristeza, se é moderada, faz chorar; se é excessiva, pode fazer rir; no seu contrário temos o exemplo: a alegria excessiva faz chorar e não só destila as lágrimas dos corações delicados e brandos, mas ainda dos fortes e duros. 

O pranto dos olhos é mais fino, o da boca é mais mordaz, e este era o pranto de Demócrito. De sorte que na minha consideração, não só Heráclito, mas Demócrito chorava.

AGOSTINHO DA SILVA E DIOGO TRAVASSOS 10º LH2- Dia Mundial da Filosofia 19 de Novembro 2015 ESPAV



 
Agostinho da Silva, “Cartas a um jovem filósofo”

“Do que você precisa, acima de tudo, é
de se não lembrar do que eu lhe disse;
nunca pense por mim,
pense sempre por você;
fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus.
 Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas.
Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha.
É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura já o pensamento lhe pertence.

São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem."
Resposta de um jovem filósofo após leitura da Carta :

" Acho que devíamos ter sempre uma opinião acerca dos problemas da vida , mesmo que esta esteja errada. Iremos, pouco a pouco, começar a pensar de uma forma mais aberta e, deste modo, iremos construindo opiniões mais fortes. " Diogo Travassos 10ºLH2.